terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Brasil tem mais mortes por alcoolismo



De 2000 a 2006, taxa de óbito por doença ligada a consumo de bebida subiu 18%; dado real deve ser ainda maior

Lígia Formenti, BRASÍLIA
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A taxa de mortalidade por doenças associadas ao alcoolismo subiu de 10,7 para 12,64 óbitos por 100 mil habitantes em seis anos. Os dados, revelados em uma pesquisa feita pelo Ministério da Saúde, comparam os números registrados em 2000 e 2006 e, na avaliação de especialistas, pode ser ainda maior. "Esta é uma amostra do grave problema de saúde pública provocado pelo excesso de bebida", afirma a coordenadora do Departamento de Análise de Situação de Saúde do Ministério da Saúde, Deborah Malta.

No período analisado, foram contabilizados 146.349 óbitos associados ao consumo do álcool, o que dá uma média de 57 mortes por dia. Desse total, 92.946 estão plenamente ligadas ao excesso de bebida. Todas elas são consideradas como mortes evitáveis. "O tratamento da dependência ao álcool é difícil, com taxas baixas de sucesso", diz Deborah. "Mas é possível prevenir, e é nesse ponto que temos de melhorar as estratégias."

A elevação da taxa de óbitos demonstrada no levantamento é atribuída principalmente à melhor captação dos dados, considerados ainda subestimados. A pesquisa mostra apenas uma parcela do problema, a de doenças crônicas provocadas pelo uso da bebida. "Não podemos nos esquecer que, em casos de violência, boa parte das vítimas ou agressores está alcoolizada", afirma Deborah.

Além disso, uma parcela significativa dos acidentes de trânsito é provocada pela associação da bebida com direção. "Se somarmos todos esses fatores, veremos que o número de vítimas é muito maior", completa.

Mesmo subestimados, os números do trabalho mostram a importância da adoção imediata de ações para garantir a prevenção do problema, afirma o psiquiatra e conselheiro do Conselho Regional de Medicina de SP, Mauro Aranha. "É um erro achar que bebida alcoólica só faz mal para quem a consome. Acidentes de trânsito e os números da violência estão aí para desmentir isso", completa.

A maior parte das mortes diretamente ligadas ao uso da bebida ocorre entre 30 e 59 anos, sobretudo entre homens. Mas a pesquisa mostra que as mortes relacionadas à bebida ocorrem em todas as faixas etárias, incluindo crianças e jovens. No período analisado, por exemplo, foram confirmados seis mortes por envenenamento por álcool entre 0 e 4 anos. Na faixa entre 5 e 9 anos foram seis mortes por essa causa. Entre 2000 e 2006, 271 crianças e jovens entre 0 e 19 anos morreram por causa da bebida - 231, entre 15 e 19 anos.

IGUALDADE DE GÊNERO

Os dados da pesquisa são ainda mais preocupantes quando comparados com outros trabalhos do ministério. Um deles aponta o aumento do consumo excessivo de bebidas entre mulheres. Batizada de Vigitel, a pesquisa, feita em várias partes do País por telefone, procurou, entre outros assuntos, saber o quanto o brasileiro consome bebidas "em binge". O termo é usado todas as vezes que um homem consome, de uma só vez, cinco doses ou mais de bebida. Para mulheres, é considerado beber em binge quando a ingestão é superior a quatro doses em um único episódio.

Quando foi feito pela primeira vez, em 2006, a pesquisa mostrou que 8,1 das mulheres bebiam em binge. Dados provisórios de 2008 mostram que 11% das mulheres apresentam esse novo padrão de consumo. Para Deborah, essa mudança é fruto, entre outras coisas, da maior pressão da propaganda. "Até pouco tempo, as campanhas tinham como maior alvo os homens. Mas isso está mudando."

O coordenador da Unidade de Pesquisa de Álcool e Drogas (Uniad) da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), Ronaldo Laranjeira, não se espanta com a nova tendência. "É um fenômeno semelhante com o que ocorreu no tabagismo. A igualdade entre gêneros ocorre em todas as áreas. Não há só benefícios. Os riscos de doenças entre grupos também tendem a se igualar", observa.

O levantamento preliminar de 2008 mostra ainda que 29% dos homens disseram beber em binge. "Enquanto a política do álcool for ditada pela indústria, vamos ouvir esse tipo de notícia", avalia Laranjeira. Ele afirma que é fundamental assegurar a proibição de bebidas entre jovens, melhorar a fiscalização para evitar a associação de álcool e direção e colocar regras claras e severas para propaganda. "Mas o que assistimos é o oposto, é a apatia."

Como exemplo, ele cita a demora na avaliação do projeto que dá uma nova classificação para bebidas alcoólicas - ponto de partida para reduzir as propagandas. Ele lembra também da pouca fiscalização da lei seca e, o pior: a facilidade com que jovens têm acesso à bebida. "Enquanto isso não mudar, a tendência é só uma: o número de acidentes, de abusos e doenças aumentar."



NÚMEROS

146 mil mortes
relacionadas ao consumo de álcool foram registradas no Brasil entre 2000 e 2006

57 por dia
é a média do número de óbitos, no período, associados ao álcool

92 mil
óbitos registrados entre 2000 e 2006 estão diretamente ligados ao alcoolismo

11% das mulheres
entrevistadas por uma pesquisa do Ministério da Saúde afirmam beber sempre, no mínimo, quatro doses de bebida alcoólica

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

CRACK



Crack é uma droga feita a partir da mistura de cocaína com bicarbonato de sódio geralmente fumada.[1] Chega ao sistema nervoso central em dez segundos, devido ao fato de a área de absorção pulmonar ser grande. Em relação ao seu preço, é uma droga mais barata que a cocaína.[2]

O uso de cocaína por via intravenosa foi quase extinto no Brasil, pois foi substituído pelo crack, que provoca efeito semelhante, sendo tão potente quanto a cocaína injetada. A forma de uso do crack também favoreceu sua disseminação, já que não necessita de seringa — basta um cachimbo, na maioria das vezes improvisado, como uma lata de alumínio furada, por exemplo.

O crack eleva a temperatura corporal, podendo causar no dependente um acidente vascular cerebral. A droga também causa destruição de neurônios e provoca a degeneração dos músculos do corpo (rabdomiólise), o que dá aquela aparência característica (esquelética) ao indivíduo: ossos da face salientes, braços e pernas finos e costelas aparentes. O crack inibe a fome, de maneira que os usuários só se alimentam quando não estão sob seu efeito narcótico. Outro efeito da droga é o excesso de horas sem dormir, e tudo isso pode deixar o dependente facilmente doente.

O usuário de crack se torna completamente viciado na droga em pouco tempo. Normalmente o dependente, após algum tempo de uso da droga, continua a consumi-la apenas para fugir do desconforto da síndrome de abstinência — depressão, ansiedade e agressividade —, comum a outras drogas estimulantes.

Após o uso, a pessoa apresenta quadros de extrema violência, agressividade que se manifesta a princípio contra a própria família, desestruturando-a em todos os aspectos, e depois, por consequência, volta-se contra a sociedade em geral, com visível aumento do número de crimes relacionados ao vício em referência[1].

O uso do crack — e sua potente dependência psíquica — frequentemente leva o usuário à prática de delitos, para obter a droga. Os pequenos furtos de dinheiro e de objetos, sobretudo eletrodomésticos, muitas vezes começam em casa. Muitos dependentes acabam vendendo tudo o que têm a disposição, ficando somente com a roupa do corpo. Se for mulher, não terá o mínimo escrúpulo em se prostituir para sustentar o vício. O dependente dificilmente consegue manter uma rotina de trabalho ou de estudos e passa a viver basicamente em busca da droga, não medindo esforços para consegui-la. É bom ressaltar que embora seja uma droga mais barata que a cocaína, o uso do crack acaba sendo mais dispendioso: o efeito da pedra de crack é mais intenso, mas passa mais depressa, o que leva ao uso compulsivo de várias pedras por dia.

As chances de recuperação dessa doença, que muitos especialistas chamam de "doença adquirida" (lembrando que a adição não tem cura), são muito baixas, pois exige a submissão voluntária ao tratamento por parte do dependente, o que é difícil, haja vista que a "fissura", isto é, a vontade de voltar a usar a droga, é grande demais. Além disso, a maioria das famílias de usuários não tem condições de custear tratamentos em clínicas particulares ou de conseguir vagas em clínicas terapêuticas assistenciais, que nem sempre são idôneas. É comum o dependente iniciar, mas abandonar o tratamento.

Seis vezes mais potente que a cocaína, o crack tem ação devastadora provocando lesões cerebrais irreversíveis; porém, ao contrário do que se poderia imaginar, não são as complicações de saúde pelo uso crônico da droga, mas sim os homicídios que constituem a primeira causa de morte entre os usuários, resultantes de brigas em geral, ações policiais e punições de traficantes pelo não-pagamento de dívidas contraídas nesse comércio; outra causa importante são as doenças sexualmente transmissíveis, como o HIV, por exemplo, por conta do comportamento promíscuo que a droga gera.

Um estudo[3] O pesquisador Marcelo Ribeiro de Araújo acompanhou 131 dependentes de crack internados em clínicas de reabilitação e concluiu que usuários de crack correm risco de morte oito vezes maior que a população em geral. Cerca de 18,5% dos pacientes morreram após cinco anos. Destes, cerca de 60% morreram assassinados, 10% morreram de overdose e 30% em decorrência de aids.

Estatísicas demonstram um aumento percentual do consumo de crack em relação às outras drogas, vindo seus usuários tanto de camadas sociais mais variadas. Outros estudos relacionam a entrada do crack como droga circulante em São Paulo ao aumento da criminalidade e da prostituição entre os jovens, com o fim de financiar o vício. Na periferia da cidade de São Paulo, jovens prostitutas viciadas em crack são o nicho de maior crescimento da aids no Brasil.

Outras drogas, sobretudo a cocaína, funcionam, via de regra, como porta de entrada para o crack a que o usuário recorre por falta de dinheiro, para sentir efeitos mais fortes, ou ainda por curiosidade. Assim, na degenerescência do vício, o crack aparece como o degrau mais baixo (o "fundo do poço")[2].

O efeito social do uso do crack é o mais deletério entre as drogas normalmente encontradas no Brasil. A droga arruína de tal forma a vida do consumidor do produto que, segundo se diz, de início as próprias quadrilhas de traficantes do Rio de Janeiro não permitiam a sua entrada. Entretanto, recentes reportagens demonstram que a realidade já é bem diversa, e o entorpecente tornou-se o mais comercializado nas favelas cariocas. Atualmente, pode-se dizer que há uma verdadeira "epidemia" de consumo do crack no País, atingindo cidades grandes, médias e pequenas.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

"O Álcool me Causou Ressaca Moral"


Odacir Klein
"O Álcool me Causou Ressaca Moral"
Alcoólatra por mais de 30 anos, o ex-ministro rompe o silêncio e conta em livro de memórias como o vício quase acabou com a sua vida
Francisco Alves Filho
Como ministro dos Trans¬portes, no governo de Fernando Henrique, e deputado federal por quatro man¬¬datos, o gaúcho Odacir Klein, 66 anos, enfrentou muitos desafios, mas nada comparável aos dramas que teve que superar na vida pessoal. Vítima do alcoolismo, por várias vezes sacrificou sua agenda de compromissos por conta da bebida.
"Teve um sábado em que tomei todas
e o Felipe foi para o apartamento em que eu estava,
viu aquilo e se jogou do nono andar"
O pior, no entanto, foram as consequências do vício na família. Por causa de um de seus porres, seu filho Fabrício, que tinha tirado carteira de motorista havia pouco tempo, tomou o volante do carro e acabou atropelando uma pessoa, em 1996. O golpe mais duro, porém, ainda estava por vir. Depois de repreendê-lo duramente por ter voltado a beber, o outro filho, Felipe, jogou-se do nono andar do prédio em que estavam, em Porto Alegre, e morreu. “Só entendi o que tinha acontecido depois, quando acordei”, diz. Desde então, parou de beber. Para acertar as contas consigo mesmo e alertar para os riscos do alcoolismo, Klein escreveu o livro “Conversando com os Netos”, no qual corajosamente relata suas desventuras. “Admito que tive esse vício”, diz ele, cujo pai e o avô também foram alcoólatras. Klein saiu da política e é, hoje, presidente da Associação Brasileira dos Produtores de Milho, em Brasília.
"Quando eu era ministro, no final da tarde eu já não tinha condições de falar ou dar entrevista. Era, a rigor, um porrinho a cada noite"

Istoé -
Quando a sua atração pela bebida passou a se tornar um problema?
Odacir Klein -
Demorou algum tempo. Fui prefeito com 25 anos, em Getúlio Vargas (RS), e bebia em festas, mas não era todo dia. Comecei o tal de “beber socialmente” quando assumi a Câmara dos Deputados, em 1972. Eu saía de lá e achava que era bonito, que dava status chegar em casa e pegar um copo de uísque. Tinha 31 anos. Fui levando e foi acentuando. Eu tinha o sinal amarelo aceso e não sabia. O que no começo eram duas doses passou para três ou quatro. E foi acentuando.
Istoé -
Como o sr. começou a beber?
Odacir Klein -
Eu sabia o que tinha ocorrido com meu avô em relação ao alcoolismo, acompanhava o problema do meu pai, sabia que meu pai tinha irmãos que também tiveram problemas com álcool e haviam parado. Mesmo assim, eu achava bonito beber um pouco. Então, era bonito ir a um baile e beber, ir a um jantar com os amigos e beber... Comecei com 15, 16 anos
Istoé -
Quando o sr. acha que chegou ao ponto máximo?
Odacir Klein -
Acho que ficou mais acentuado naquela época em que estive no Ministério, em 95 e 96. O vício já tinha tomado conta do organismo, não tinha nada a ver com a rotina de Brasília, excesso de preocupação ou com alívio de tensão. Mas não notava que as coisas estavam fora de controle.
Istoé -
Como o alcoolismo influía no dia a dia do Ministério? E como deputado?
Odacir Klein -
Quando eu era ministro e havia recepções de governo, ou até no Itamaraty, com representações estrangeiras, minha mulher me acompanhava, apavorada. Ela sabia que antes da recepção eu já ia começar a tomar um uisquezinho, depois haveria um vinho na recepção e eu beberia mais do que a média das outras pessoas. Ela já imaginava que isso ia acontecer, embora eu conseguisse dissimular muito bem. No final da tarde, início da noite, quando os profissionais da imprensa ou pessoas ligadas a assuntos eleitorais me ligavam, eu já não tinha condições de falar ou dar entrevista. Era, a rigor, um porrinho por noite.
Istoé -
Qual era o pior efeito da bebida?
Odacir Klein -
A ressaca moral, uma profunda vergonha por lembrar do que tinha feito ou por não conseguir lembrar de algo que as pessoas comentavam que eu fizera. E, quando vinha a repreensão, havia um misto de arrependimento com uma rejeição contra quem falava.
Istoé -
Como foi o acidente automobilístico em que seu filho atropelou uma pessoa que acabou morrendo? Qual a relação com a bebida?
Odacir Klein -
Ele havia recebido seu primeiro salário trabalhando como auxiliar num escritório de contabilidade, e fomos para o Clube do Congresso fazer um churrasco. Não quis ir de carro oficial, porque era um compromisso privado. Ele havia tirado a carteira pouco tempo antes e eu disse: “Te controla porque tu vais dirigir na volta.” Tomei todas, achando que não havia nenhum problema. Na volta, ele conta que nosso carro foi fechado e por isso houve o atropelamento. Como eu estava de bermuda, de roupa esporte e embriagadíssimo, tenho certeza de que ele não parou aquele carro porque sabia que havia outras pessoas para socorrer e não queria me expor. Hoje ele só diz para eu não me culpar por nada.
Istoé -
Foi por causa do acidente que o sr. entregou o cargo de ministro?
Odacir Klein -
Isso mesmo. Dois dias depois li uma matéria num jornal que mencionava a minha história e dizia que eu não tinha mais condições de continuar ministro. Saí, e não é preciso dizer que dei uma afundada etílica respeitável. Eu sofri muito. Primeiro, porque minha vida não é pautada por agressões e uma pessoa tinha morrido (no acidente). Segundo, havia toda uma repercussão pública, como se eu fosse o bandido número 1 do País. Então, naquele momento, aquilo machucava e marcava, não há a menor dúvida.
Istoé -
E como foi o suicídio de seu outro filho?
Odacir Klein -
Esse foi um episódio muito duro. Por várias vezes, estava no bar em Porto Alegre, ligava para casa e dizia para meu filho mais novo: “Olha, vem me buscar aqui no bar porque não estou bem”, e ele ia. Ele tinha 20 anos na época, sofria quando eu bebia. Eu estava na Secretaria de Agricultura do Rio Grande do Sul e tinha parado de beber por mais de um ano. Mas ele sentiu que eu estava naquela de achar que essa coisa da dependência era bobagem e eu podia beber um pouco. Um dia, estávamos conversando e ele sentiu algo errado: “Você bebeu.” E foi aí que ele me disse: “Se você voltar a tomar bebida alcoólica, não vai mais me ver.” Teve um sábado em que eu tomei todas e ele foi para o apartamento em que eu estava, viu aquilo e houve o desfecho. Ele se jogou do nono andar do prédio em que eu estava morando. Foi o último dia em que bebi, em 17 de abril de 2004. Dormi e quando eu acordei é que me disseram o que tinha acontecido.
Istoé -
Como o sr. lida com essa lembrança dolorosa?
Odacir Klein -
Eu estabeleci para mim um conceito: saudade não é a dor da separação, é a expectativa alegre do reencontro. É um conceito meu, não li em parte nenhuma. Eu digo que, quando eu era criança, os jovens iam prestar serviço militar a 700 km de onde eu morava. Quando os jovens iam, as famílias choravam muito e quando voltavam era uma alegria. Tenho certeza do reencontro com meu filho.
Istoé -
E na época, como o sr. enfrentou esse fato?
Odacir Klein -
Eu mergulhei no trabalho com muita intensidade. Estava muito confuso com tudo. Naquele momento, a grande mão amiga foi o governador Germano Rigotto. Eu era secretário de Agricultura e a rigor estava prejudicando o governo. Ele escreveu uma carta muito bonita e me telefonou para dizer que eu tinha uma história política e que ainda teria muito por fazer, frisou as minhas condições como pessoa. Antes dessa recaída, ele tinha me sugerido ir para um spa. Passei inteiro durante a campanha dele, quando fui candidato a senador. Já não bebia havia um ano, e aí, no início do governo, meu pai faleceu. Tive uma recaída.
Istoé -
Por que o sr. decidiu escrever o livro?
Odacir Klein -
Tive internações para me desintoxicar e em conversas com médicos aprendi algo que a grande maioria das pessoas não sabe. As pessoas ficam muito surpresas quando descobrem que o hábito de beber reiteradamente cria dependência para algumas delas. Achei que sabendo disso e tendo uma certa notoriedade por conta dos cargos públicos, conseguiria me comunicar com as pessoas e transmitir essas questões. Em razão disso, escrevi “Conversando com os Netos”.
Istoé -
O sr. tomou contato pela primeira vez com o problema do alcoolismo através de seu pai?
Odacir Klein -
Sim. Ele alternava períodos em que bebia e outros em que não bebia. Eu tinha em torno de 7 anos quando meu pai passou por um período em que bebia muito. Teve muitas idas e vindas e, depois de ficar oito anos sem beber, voltou e teve a pior recaída. Parecia algo completamente incontrolável. Eu tinha 20 anos nessa época e não conseguia entendê-lo, perguntava por que tinha parado e voltado.
Istoé -
Como era o seu relacionamento com seu pai?
Odacir Klein -
Quando ele bebia e a família ficava tensa, eu sentia muita raiva. Passado aquele período, a gente procurava ajudá-lo e ficava com pena. Quando havia a recaída, me ligavam: “Teu pai está no bar tal, embriagado, venha buscá-lo.” Às vezes ele estava alterado. Foi um tipo de relacionamento muito sofrido por conta disso. De um lado a gente tinha estima por ele e queria que ele estivesse bem, mas, por outro lado, naquele momento, a gente não conseguia entender sua fraqueza. O que eu não sabia à época é que ele tinha adquirido vício e havia até uma questão genética. Era mais forte que ele.
Istoé -
O sr. acha que o governo dá ao problema do alcoolismo a prioridade devida?
Odacir Klein -
Com certeza, não. Em nenhuma campanha eu vejo o esclarecimento sobre as consequências do ato de beber reiteradamente. É preciso dizer que alguém que não tenha tendência natural pode desenvolver a doença se beber com muita frequência. Vejo muito cerco ao fumo, mas não vejo maiores esclarecimentos quanto à bebida. Não quero banir o álcool, mas é preciso mais informação.
Istoé -
O que o sr. aprendeu sobre dependência?
Odacir Klein -
Há quatro reações diante da bebida. Existem aqueles que não bebem nada. Depois, tem a situação dos que podem beber moderadamente, gente que sai do trabalho para tomar um chopinho e é como se tivesse comido uma empada. Há a situação daqueles que estão no sinal amarelo: vão para uma festa, tomam um gole e o organismo pede mais, tem insuficiência de endorfina (neurotransmissor ligado ao bem-estar e prazer) e precisam cada vez mais de bebida. O sinal vermelho é justamente quando a pessoa passa a sentir falta do álcool. Porque as pessoas podem ter prazer em beber e não sentir falta da bebida. Já fui alcoólatra, alguém que tem o vício. Hoje não sou mais viciado, mas adquiri uma doença eterna.
http://www.istoe.com.br/assuntos/entrevista/detalhe/33550_O+ALCOOL+ME+CAUSOU+RESSACA+MORAL+

sábado, 12 de dezembro de 2009

Tomar café não corta efeitos do álcool, indica estudo


Um estudo realizado nos Estados Unidos sugere que tomar café não acaba com os efeitos de uma bebedeira, diferentemente do que diz a crença popular.
Segundo os cientistas responsáveis pela pesquisa, o que o café parece fazer é tornar mais difícil para o alcoolizado perceber que está bêbado.
No estudo, da Universidade de Temple, na cidade de Filadélfia, camundongos foram submetidos a ruídos altos e luzes brilhantes, ficando assustados e sendo forçados a seguir por um labirinto para fugir.

Os animais receberam doses de bebidas alcoólicas e cafeína em várias combinações diferentes, e o desempenho deles no labirinto foi comparado ao desempenho de outros ratos que receberam apenas uma solução salina neutra.
Os camundongos que receberam doses de álcool aparentaram estar mais relaxados, porém menos capazes de se moverem pelo labirinto para fugir dos sustos.
Os que receberam doses de cafeína ficaram mais alertas e se movimentaram melhor na fuga pelo labirinto.
Mas a combinação entre cafeína e bebida alcoólica, embora tenha resultado em camundongos um pouco mais alertas, não garantiu que eles conseguissem fugir pelo labirinto, evitando os sustos.

‘Mito’
Os pesquisadores acreditam que, em humanos, a combinação faz com que as pessoas sintam que não estão bêbadas, quando, na verdade, elas ainda estão sob efeito do álcool.
"É importante acabar com o mito sobre o poder do café de cortar o efeito do álcool, pois o consumo de cafeína e álcool pode na verdade levar a decisões erradas com resultados desastrosos", afirmou o líder da pesquisa, Thomas Gould.
"Pessoas que se sentem cansadas e embriagadas depois de consumir bebidas alcoólicas podem ter maior probabilidade de admitir que estão bêbadas."
"Por outro lado, pessoas que consumiram bebidas alcoólicas e cafeína podem sentir que estão em condições de lidar com situações potencialmente perigosas, como dirigir sob efeito da bebida", acrescentou.
A pesquisa foi publicada na publicação especializada Behavioural Neuroscience.

FONTE: http://noticias.uol.com.br/ultnot/cienciaesaude/ultnot/bbc/2009/12/09/tomar-cafe-nao-corta-efeitos-do-alcool-indica-estudo.jhtm

domingo, 6 de dezembro de 2009

O ALCOOLISMO DÁ EM TODO TIPO DE GENTE


Uma das lendas sobre sobre o alcoolismo é que ele seja causado pela miséria. A vida se tornaria tão dura que, para anestesiar-se, o miserável se refugiaria no álcool. Isso não é verdade. O etilismo ocorre com a mesma frequência em países pobres ou ricos, países capitalistas ou socialistas. Dá tanto em rico quanto em pobre, tanto em branco quanto em preto. Não é sintoma de problemas sociais. Também não é doença de gente triste. Registram-se os mesmos 13% entre pessoas frustradas ou bem-sucedidas, bem-amadas, tímidas ou extrovertidas, angustiadas ou tranquilas. Não há conexão direta entre alcoolismo e fossa.

Outra lenda é que o alcoolismo seria decorrência do clima frio. As pessoas iriam se “viciando” no álcool por recorrerem frequentemente a ele para aquecer o corpo. Também isso não é verdade: em países tropicais bebe-se tanto quanto nos países nórdicos – baiano não bebe menos do que sueco ou esquimó.

A compulsão ao álcool não tem igualmente nada a ver com gula ou voracidade. Dá com a mesma regularidade em gordos e magros, gulosos e frugais. É óbvio que o alcoolismo é uma voracidade, só que é uma voracidade restrita ao álcool. Um alcoólatra pode perfeitamente ser uma pessoa moderada em tudo o mais.

Tampouco existem tipos de personalidade mais sensíveis ao álcool. Se muitos alcoólatras são violentos, paranóicos, ciumentos, muitos não o são, ou só ficam assim quando estão bêbados, se bem que muito bêbado é meigo, tranquilo, manso, mesmo no auge do pileque.

O fato de se ficar embriagado com pouco álcool ou de não se mostrar alterado nem com muito álcool também não quer dizer nada. Muito alcoólatra fica bêbado na primeira dose, e outros não se embriagam nem depois de beberem um litro. A única vantagem do alcoolismo de pequenas doses é que sai mais barato para quem está nele, caso não continue bebendo depois de bêbado...

Alcoolismo também não é coisa de gente preguiçosa ou fraca da vontade. Aquele atleta de ontem, que acordava com o nascer do sol e apresentava a mais férrea força de vontade, pode perfeitamente tornar-se o pau-d'água de amanhã.

A frequência com que se bebe, esta sim, é sugestiva de tendência ao alcoolismo, embora não seja fator decisivo. Muita gente bebe diariamente e jamais perde a moderação espontânea, enquanto outros bebem anualmente, num único fim de semana, mas aí ninguém segura. Porém, de maneira geral, o alcoólatra tende a beber cada vez mais, e mais habitualmente.



Eduardo Mascarenhas no site de Vander Campello: http://www.vandercampello.rg3.net/

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Alcoolismo



O comportamento humano de ingerir álcool (etanol; álcool etílico) é bem antigo. De acordo com registros arqueológicos, desde 6000 a.C. e na Idade Média, após a descoberta do processo de destilação, a bebida alcoólica passou a ser utilizada como remédio para alívio da dor. Em pleno século XXI, vemos o seu consumo facilitado por novas formas de oferta de álcool e, sobretudo, pela aceitação e incentivo da sociedade, apesar de ser considerada uma droga psicotrópica.

Ao ingerir álcool, todo indivíduo passa pelo efeito agudo, que pode ser estimulante (desinibição, euforia e facilidade para falar) ou depressor (descoordenação motora, desequilíbrio e sono). Através do metabolismo, o organismo remove a droga circulante. Porém, podem acontecer efeitos desagradáveis (dores de cabeça e mal-estar geral). A ingestão abusiva de bebidas alcoólicas pode acarretar a dependência de álcool. Tal condição é denominada alcoolismo. No alcoolismo, o organismo passa a ter tolerância crônica, que possibilita quantidades cada vez mais elevadas, aumentando as doses progressivamente para se livrar da abstinência. No quadro crônico, quando o indivíduo pára de beber por 6 ou 8 horas, acontece a síndrome de abstinência (problemas gastrointestinais, agitação psicomotora, distúrbio do sono e tremores nas mãos), sendo o delirium tremens a forma mais severa da síndrome. Como efeitos crônicos do álcool no corpo, surgem as doenças no fígado (cirrose hepática, hepatite alcoólica e esteatose hepática), entre outros problemas de sáude, como doenças cardiovasculares e traumatismos devido às freqüentes quedas.

Dentre os fatores biológicos e socioculturais como desencadeantes do alcoolismo estão os fatores psicológicos. Quando o indivíduo não se permite resolver seus conflitos emocionais, deixando de buscar algum tipo de ajuda, pode encontrar no consumo de álcool uma forma negativa de enfrentamento de vida, estabelecendo uma falsa crença de resolução. Em indivíduos alcoolistas, observam-se aspectos de estrutura de personalidade como intensa insegurança, distorção de valores, baixa auto-estima, introversão e rigidez de cárater. O tratamento do alcoolismo realiza-se através de medicamentos que amenizam os efeitos da síndrome de abstinência, desintoxicação, orientação nutricional e psicoterapia (individual e/ou familiar). Por se tratar de uma adição socialmente aceita, é difícil o reconhecimento por parte do dependente de que ele necessita de ajuda. Implicando tempo, perdas importantes (profissional, saúde e social), podendo afetar gravemente a estrutura familiar deste indivíduo. A bebida alcoólica pode fazer parte do nosso contexto social e cultural. Porém, devemos ter responsabilidade ao fazê-lo, pois é possível transformar um simples ato prazeroso em um problema, causando em nossas vidas e nas dos que nos cercam conseqüências destruidoras e irreversíveis.

Dra. Sandra Regina da Silva
08.03.2007

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

ALCOÓLICOS ANÔNIMOS


Um pouco sobre o A.A.

"Alcoolismo é uma das doenças que mais provoca óbitos entre seus portadores. Caracterizando-se por uma predisposição física aliada a uma obsessão mental, instala-se gradativamente na pessoa até dominá-la inteiramente. Irreversível, progressiva e incurável, atinge indistintamente homens e mulheres de todas as raças, credos ou condição social. Para que seus portadores não tenham como fim inevitável a loucura ou a morte prematura, só existe uma saída: deter a marcha da doença através da abstinência total e permanente do álcool. Essa tarefa não é fácil e para realizá-la o alcoólico precisa reaprender a viver.

É justamente para isso que existe Alcoólicos Anônimos, uma irmandade mundial de homens e mulheres, todos alcoólicos, que se ajudam mutuamente a manter a sobriedade e compartilham suas experiências com qualquer pessoa que possa ter problemas com seu modo de beber.

Alcoólicos Anônimos não se vincula a qualquer religião, movimento político ou instituição. Não faz internações, não realiza tratamentos médicos ou psiquiátricos nem proporciona serviços de enfermagem ou desintoxicação, hospitalização, medicamentos ou qualquer tratamento de saúde. Não se dedica nem patrocina pesquisas. Não oferece assistência religiosa. Não fornece abrigo, comida, roupas, empregos, dinheiro ou outros serviços de beneficiência ou assistência social. Não aceita dinheiro em pagamento por seus serviços ou quaisquer contribuições de fontes de fora da Irmandade.

Sua atuação se efetua através de um Programa de Recuperação, OS DOZE PASSOS, sugeridos para a prática diária na vida do alcoólico e de reuniões promovidas pelos Grupos de A.A., onde são trocadas experiências dos problemas vividos durante o alcoolismo ativo e como cada um está vivendo na sobriedade, fortalecendo-se assim, o desejo de permanecer abstinente.

A.A. não cobra taxas ou mensalidades. Sobrevive graças às contribuições voluntárias de seus membros, mantendo-se sempre livre de injunções políticas ou financeiras que possam vir a prejudicar seu propósito primordial: transmitir a mensagem ao alcoólico que ainda sofre.

Outra característica fundamental de Alcoólicos Anônimos é a colocação dos princípios da Irmandade acima das personalidades de seus membros, razão pela qual o anonimato de seus integrantes é cuidadosamente preservado.

Atualmente Alcoólicos Anônimos conta com cerca de 97 mil Grupos locais em mais de 150 países. No Brasil, somos cerca de 6 mil Grupos."

Texto tirado do site: http://tco21.no.sapo.pt/passos.htm